Um clarão de céu e inferno ao mesmo tempo: com a mesma urgência que sobe, desce. Fecho os olhos e conto devagar quantos segundos tenho do relâmpago ao trovão. A brevidade é devastadora: tanto mais me destrói do que a eternidade. Tive cinco segundos de euforia, cinco segundos de plenitude, cinco segundos de sofrimento, cinco segundos de dor; tive cinco segundos para me sentir viva e cinco segundos para morrer.
segunda-feira, 15 de junho de 2009
domingo, 7 de junho de 2009
Agonia
Seu cheiro ainda estava no travesseiro. A sua imagem ainda estava refletida no espelho, ou seria dentro dos meus olhos? A cama estava arrumada; a louça, limpa; e um sorriso, estampado no meu rosto. Tudo em ordem. Cabia nos dedos de uma mão a contagem dos dias desde que ela partira. As flores ainda espalhavam beleza pela sala, o cheiro de bolo quente ainda impregnava a cozinha. Eu, sempre tão disperso, nem sequer percebera que agora estava sozinho. E como perceber se tudo continuava assim, no seu devido lugar? Desatento aos detalhes, encontrava comida na geladeira, o cinzeiro limpo ao lado da minha poltrona, os meus discos guardados ao lado da vitrola, e o preferido dela a tocar. Eu ainda podia sentir sua presença, mas minha senhora já não estava lá.
"Se fosse resolver iria te dizer: foi minha agonia. Se eu tentasse enteder, por mais que eu me esforçasse, eu não conseguiria. E aqui no coração eu sei que vou morrer um pouco a cada dia..."
A música agora já estava impregnada nas paredes, nos lençóis tão desarrumados, na geladeira tão vazia, na sala tão suja, na vitrola tão empoeirada e em mim tão nojento. Não sabia proceder sozinho e, após um mês de solidão, já não era capaz de ver vida. O sol já não entrava pela janela, as flores já não coloriam a casa, o meu cinzeiro transbordava, a louça abarrotava a pia. E da cozinha já não vinha o cheiro de bolo, somente o cheiro acre da minha solidão. Mas o disco dela ainda tocava aquela mesma música:
"... E a amargura e o tempo vão deixar meu corpo, minha alma vazia. E sem que se perceba, a gente se encontra pra uma outra folia..."
"Se fosse resolver iria te dizer: foi minha agonia. Se eu tentasse enteder, por mais que eu me esforçasse, eu não conseguiria. E aqui no coração eu sei que vou morrer um pouco a cada dia..."
A música agora já estava impregnada nas paredes, nos lençóis tão desarrumados, na geladeira tão vazia, na sala tão suja, na vitrola tão empoeirada e em mim tão nojento. Não sabia proceder sozinho e, após um mês de solidão, já não era capaz de ver vida. O sol já não entrava pela janela, as flores já não coloriam a casa, o meu cinzeiro transbordava, a louça abarrotava a pia. E da cozinha já não vinha o cheiro de bolo, somente o cheiro acre da minha solidão. Mas o disco dela ainda tocava aquela mesma música:
"... E a amargura e o tempo vão deixar meu corpo, minha alma vazia. E sem que se perceba, a gente se encontra pra uma outra folia..."
sábado, 30 de maio de 2009
segunda-feira, 25 de maio de 2009
domingo, 24 de maio de 2009
Faço-te uma prece antes de dormir. Busco abrigo em teus braços, um apelo desesperado de zelo. No viés estreito em que te vejo somente sou capaz de ver o reflexo reluzente da tua alma. E ludibriada sacio-me de carinho inexistente e da tua santa proteção.
Eis que em dado momento anseio por mais, quero também eu ascender para ao teu lado estar. "Eleva-me" - eu te suplico. "Deixa-me subir ao teu lado. Meu devotado amor já não pode esperar, quero beijar os teus olhos de santa." Porém me olhas enternecida e nega.
Mas como posso eu privar-me de ti? Não entendo como podes negar tão sincero sentimento.
"Abre teu horizonte e verás que já me encontro próxima." - diz-me. Então olho nos teus olhos pela primeiríssima vez. E desta troca de olhares me escorre água benta. Enxerguei em ti horrendo pecado: um amor nosso que era tão somente meu.
Eis que em dado momento anseio por mais, quero também eu ascender para ao teu lado estar. "Eleva-me" - eu te suplico. "Deixa-me subir ao teu lado. Meu devotado amor já não pode esperar, quero beijar os teus olhos de santa." Porém me olhas enternecida e nega.
Mas como posso eu privar-me de ti? Não entendo como podes negar tão sincero sentimento.
"Abre teu horizonte e verás que já me encontro próxima." - diz-me. Então olho nos teus olhos pela primeiríssima vez. E desta troca de olhares me escorre água benta. Enxerguei em ti horrendo pecado: um amor nosso que era tão somente meu.
terça-feira, 19 de maio de 2009
Fui apenas um grão de areia em teu mundo. Já tu foste montanha para mim. Causei em ti apenas pequeno desconforto, culpa da minha aspereza de areia; talvez tenha aquecido o teu corpo ao segurar o calor do sol, mas ao cair da noite também eu esfriei.
Verdade é que não importa como se deram os fatos: o que fica de concreto é que o vento soprou e me levou para longe de ti sem que ao menos percebesses.
Verdade é que não importa como se deram os fatos: o que fica de concreto é que o vento soprou e me levou para longe de ti sem que ao menos percebesses.
Enquanto isso tua existência é imponente dentro do meu ser. Te fixaste ao centro e fizeste de ti o meu Norte. Não posso mais ignorar tua presença se tudo o que eu faço é regido pela tua sombra. Mesmo que eu queira, és grande demais em mim para que eu saiba como perder-te.
domingo, 17 de maio de 2009
Deixaste-me sem perspectiva de retorno. Mas teu cheiro ficou em mim, assim como a tua saudade, assim como o meu coração que bate dolorido. Fecho os olhos e te sinto perto, abro os olhos e vejo que é só uma ilusão. Maldito perfume, maldita saudade. Tenho vontade de despir-me: jogar minhas roupas ao chão, jogar tua lembrança ao chão, jogar tudo o que eu sinto ao chão. No entanto, palpita pesaroso o meu coração e me diz que não. Diz-me ele que te deixe comigo, que sinta o teu perfume nas minhas roupas, próximo ao meu peito e que te queira mais e mais. Mesmo que eu saiba que não vais voltar, ignoro a voz da razão, escuto triste ao que me diz a emoção: anseio por tua presença como nunca antes. No entanto sei que não vais voltar, sei que já não te pertenço e que jamais te possuí. Somos caminhos cruzados em vias de sentido contrário: quero dar meia-volta e me juntar a ti.
[escrito em 08 de abril de 2009.]
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